30 de set. de 2014

Pequena

Enquanto recortava revistas em quadrinhos, com os dedos escamando cola branca, ouvi no cômodo ao lado um baque abafado por um choro que me pungiu o peito. A pequena estabacou-se outra vez, tadinha... Fui ao seu encontro e a vejo ali, com as mãozinhas brancas no joelho levemente dobrado, já engolindo choro e olhando a quina da porta com uma raiva encantadora; com os olhos ainda inundados e o rosto todo vermelho ela me conta, injustiçada:
- Bati o joelho!
Peguei-a no colo, comovida como poucas vezes na vida - todas à pequena relacionadas - e perguntei-lhe baixinho, sabendo que assim ela prestaria mais atenção em mim do que no joelho coitado:
- Qual deles, o esquerdo ou o direito?
- Direito
Sempre me encanta esse jeitinho dela pronunciar o "r", imitando um motorzinho. Beijei então propositalmente o joelho esquerdo e, assustada, respondeu dando um pulinho em meus braços:
- É o outro!!!
- Ah, é?! Obrigada! Quase errei, hein?!
Ela não respondeu mas torceu a cara tentando conter o sorriso satisfeito que esboçou. Beijei o joelho direito e a colocando no chão não dei tempo para que voltasse a prestar atenção na dor, continuei:
- Mas você tá mais esperta que a mamãe! Já sabe até o que é direito e o que é esquerdo! Eu esqueço sempre!
Já menos vermelha e sorridente ela disse que dali pra frente eu poderia perguntar quando quisesse, porque ela me lembraria caso esquecesse qual lado é qual, enquanto virou-se desengonçada e foi em direção ao quarto com o rabicó no alto da cabeça balançando, e a blusinha de gola rolê listrada dando sinais de que já estava pequena. Havia tanto nela de mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário