Vejo-me no centro de um alvo, em tons de cinza, com o cenho tenso e olhos espremidos, aguardando sei rumar há tempos em direção ao centro do meu peito: o centro do erro. Por trás das pálpebras cerradas, reviro os olhos para a testa onde desenhei um ponto de interrogação que veste-se de alternadas cores fosforescentes, pulsando, na tentativa de incomodar-me com intensidade tal que uma resposta concreta surgiria imediatamente em minha cabeça, em uma célebre performance analógica aos primórdios da existência: Um Big Bang pessoal, íntimo e secreto. E saberia então o que fazer com tamanho desejo em meu corpo sólido, estático e criptografadado: na pele metálica jazem dezenas de súplicas que urgem a qualquer estímulo mundano que remeta a existência do meu objeto de maior estima e também algoz.
É, pois, das torturas a mãe, esta tarefa à mim designada: Calar toda e qualquer palavra afetuosa que me sobe a garganta; amarrar os braços que insistem em esticar-se ao ver na minha frente tudo que me inspira o mais belo e grotesco dos sentimentos. Grito em silêncio, por meus anseios humilhada, fadada a contentar-me com seja lá o que for que estás disposto a oferecer-me, pois, até migalhas de carinho causam-me a mais plena, mesmo que efêmera, alegria. E sigo assim... aproveitando esses momentos do mais puro júbilo que é capaz de tomar-me todo o ser pelas mãos quando os fonemas que compõe meu nome irradiam do céu da tua boca, até mesmo quando o pronuncias errado, por graça.
Não julgo-me dotada da força e sobretudo coragem que me seriam necessários para entregar-te cada uma das palavras que escondida te dedico. Reina aqui o medo de perder os poucos privilégios que me concede, há pavor de assustar-te tanto que resolvas partir. Duelam em mim a mais desesperada urgência de fazer-te ciente de tudo que à mim causa, e o mais colossal dos medos, que paralisa-me toda vez que me percebo prestes a ceder aos desejos que assomam e me gritam ao menor dos contatos. Surpreendo-me às vezes tranquila, nos raros momentos isentos da tua lembrança, mas basta-me a menor menção da tua presença para que me enxergue novamente prostrada imóvel, capaz apenas de assistir esse duelo de supremas forças em meu peito. Sei bem do desespero que evidenciaria se lhe entregasse, assim claro e límpido, o conjunto de orações que exprimem o que sinto. Mas o juro ser puro! E o juro ser imbatível nesta batalha que decidi travar contra minhas urgências.
Controlo-me e imprimo o maior dos esforços para não transparecer o quanto o quero e o que sinto e julgo-me a maior das covardes por não ter a força que me é exigida para abrir-me tal qual escrevo ou partir de vez... Pois se é iminente o ter de suprimir tudo que aqui há, se cedo ou tarde terei de encarar a necessidade de extinguir o que sinto, não vejo mais - mesmo que me convença, todos os dias, a fazê-lo - por quê fingir que em mim não habita o indizível. Permaneço ainda fraca e medrosa: contento-me da mais melancólica maneira com a amizade que me ofereces, a qual sinceramente aprecio com cada centímetro da minha existência. Ridícula que sou e sinto, aceito-a de bom grado e guardo como a um tesouro qualquer gesto afetuoso que por ventura possa vir a dirigir-me.
Assinado, Eu.
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