25 de set. de 2014

2.

Quando fazes assim, me dizes com tanta nitidez o que te aflige, quebra-me um por um os ossos já fracos, por luto meu deteriorados. Eu, que outrora encarei demônios aos teus tão semelhantes e sujei as mãos de sangue - meu e daqueles cá dentro com quem lutei, vejo-me impotente, descalibrada. Perceber em ti nuances de todo meu penar, identificar nos teus predicados sílabas que já compuseram os meus, desola-me a alma e prostro-me estéril: incapaz de gerar no âmago qualquer ação que poderia, porventura, abrandar teus mares, que fantasio vez ou outra navegar.
Sinto-me tal qual aleijada, quero envolver-te e arrancar nas unhas cada ensaio de frase continente de tristeza que em ti habita, mas os braços não obedecessem e por fim, ao fitar-me os braços, vejo-me desprovida deles. Meus membros de nada te valem neste momento, pois só os teus poderão com efeito sacudir a poeira sórdida que o envolve. Permaneço figurante da batalha tua, ali no canto, ainda fitando os braços, ainda querendo movê-los, ainda frustrada ao ver que não obtenho sucesso. Reduzi-me à tarefa de acompanhar-te, a observar de longe e a torcer as entranhas em uma força desumana a fim de que minhas intenções te sejam proveitosas. Mas juro que se o pudesse, tomaria tuas aflições todas e as aniquilaria, uma à uma, sozinha.
A dor tua me punge o peito; quero que o saiba e quero que o sinta sincero. Mantenho-me, como sempre estive: discretamente presente, te esperando só braços e afeto, para abraçar-te quando a maré baixar ou só quando no abraço meu quiser atracar. Tens aqui uma amiga, o juro.

Assinado, Eu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário