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17 de ago. de 2014

No fim vesti você

Abri as portas do guarda-roupa improvisado
Nele há de tudo um pouco e quase tudo preto
Penso que agora já é pouco até o ter ao lado

Faço as contas em um silêncio inquieto
Afasto cabides e ensaio diálogos
Hoje eu o quis dormindo por perto

Há no fundo da gaveta aquela sua camiseta branca
Que acidentalmente eu manchei mês passado
Mas ela continua comigo e lhe vou ser franca
Vesti às pressas seu presente e o tecido me caiu pesado

Senti a impaciência tomando conta e o peito apertado
Quero logo vestir mais que suas roupas
O quero amassando meu cabelo em um colchão improvisado
Me acordando com um bom dia e um sorriso de lado

Percebi que a noite seria longa porque
Entre tantas outras opções 
Hoje eu vesti você.

16 de ago. de 2014

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Nada acontece por acaso. Nenhuma pessoa entra em nossa vida à toa e nenhuma decisão que tomamos é inteiramente por conta própria. Há influência, há motivos e um propósito maior. Seria negligência e egoísmo da minha parte negar tudo isso. Hoje, mais do que em qualquer outro dia da minha vida, minha consciência elevou-se e meu agradecimento a oportunidade que me foi dada de recomeçar não só uma, mas duas vezes nessa vida, multiplicou-se e tomou conta de toda minha existência, presente e futura.
Depois de anos acompanhada de um mal-estar, depois de inúmeras tentativas previamente fadadas ao erro - somente eu não percebia isso e negava qualquer ajuda que me oferecessem-, eu precisei passar por um renascimento. Precisei sofrer tanto, mas tanto! A ponto de arriscar perder minha vida e mais: fazer sofrer quem me presenteou com ela juntamente a todos que por mim zelaram quando estive cega a ponto de feri-los, cada vez pior e constantemente. Depois de todo o sofrimento e angústia que causei, não só a mim mas aos outros, eu tive minha redenção... Primeiro comigo mesma e agora, devagar, com aqueles que a mim amaram e eu amei também.
Minha tentativa de suicídio não está nem perto de ser o começo da minha sequência de erros e ataques - mesmo que inconscientes - à todos a minha volta, tudo se construiu com o passar dos anos, através de mentiras, de ostracismo, de rancor e uma necessidade imensurável de sentir-me amada. Parece irônico, ferir aos outros para receber amor... e é. Não só irônico, como tosco, sórdido. Foi esse o caminho que trilhei embora não me lembre quando exatamente eu tenha dado o primeiro passo... e mesmo quando nele caminhava não percebia o motivo, nem sequer o questionava, salvo rápidos momentos de lucidez. Neguei insistentemente todo o amor que me foi dado, todo o zelo da minha mãe e irmã, principalmente. Neguei o quanto meu companheiro a mim amava e estimava, o quanto se esforçou e se doou por mim. Hoje vejo o quanto eu, egoísta, tomei dos outros que se dispunham a estar ao meu lado. Sei que todo esse comportamento destrutivo vem já se edificando há anos, mas volto a pontuar meu atentado pois foi o ápice da minha maldade e sordidez. Fui vil, perniciosa e sobretudo ingrata. Mereci cada pontada de dor, cada lágrima que eu mesma inconsciente me causei... Como é a lei da vida eu não poderia ter saído ilesa: perdi a confiança daqueles próximos a mim; a capacidade de aceitar e aproveitar momentos felizes; perdi quem amava e amo;  perdi incontáveis momentos amorosos com minha família e comigo mesma. Não sou mártir, mas sou a prova de que a vida é justa e não imutável. 
Tanto afligi aos outros e a mim mesma, tanto penei e no meio deste penar eu decidi mais uma vez recomeçar: vim para minha cidade natal onde me aguardava o minúsculo, porém preciosíssimo pedaço de papel que me faria olhar para trás com outros olhos, tomar um soco na cara da realidade. A descoberta desse papel foi a imersão da verdadeira Ana Vitória, subindo-me pelas entranhas até golpear-me os olhos com lágrimas e gritar dentro de mim, retomando as rédeas do corpo que a pertencia. Foi em Curitiba que encontrei uma carta, endereçada ao meu falecido avô, quem amei e amo de maneira indescritível e que não cabe ao momento e nem a esse texto, expressar. Foi esta carta que me trouxe à tona todos os meus erros, que fez-me questionar onde estava a menina que a escreveu e porque não cumpri com tudo o que ali estava escrito, uma vez que eu sei de todo o coração que nem mesmo uma vírgula foi desprovida de verdade. Toda e cada letra foram escritos com o amor mais puro que existe... Então onde estive? Eu, quem as escreveu, esses anos todos? Fui justamente o oposto: nociva, melancólica e amarga. Tomei a liberdade de ferir, quase que de morte, todos que por mim zelaram desde o meu primeiro choro, no meu nascimento... Obriguei minha irmã, a ver-me ensanguentada, rasgada, torpe. Não lhe dei a oportunidade de escolher presenciar algo tão horrível como o sangue de alguém que se ama... O fiz com quem me acompanhava, e o fiz tão cega, tomada de tanto egoísmo que não deixei nem mesmo que me ajudassem... Mais uma vez, lá estava eu, negando todo o amor que me era oferecido. Mais uma vez, causando dor em todos que, irredutíveis, mantinham-se ao meu lado. Hoje revivo não só a noite em que me tornei a maior vilã da minha estória, mas todo o percurso até ela, com os olhos e a cabeça doendo... Mas com a sensação de redenção, de perdão e sobretudo do amor que sempre busquei... Esteve aqui o tempo todo, soterrado junto com a menina que dedicou-se a escrever ao avô doente. Amei sim, pura e intensamente a TODOS... Fui amada sim, fui MUITO amada... Neguei e testei incansavelmente até que a justiça veio a mim e me fez sentir o peso das minhas ações. Reconheço toda a dor e o sofrimento que causei a todos e confesso que HOJE, dia 16 de agosto de 2014, eu sofro muito mais ao sentir tudo isso sendo puxado garganta a fora, ao vomitar minhas próprias verdades e conseguir tirar de dentro de mim todo o amor que neguei a mim e sobretudo à minha família.

Depois de anos, eu disse espontanea e verdadeiramente, que a amo, mãe. Repetiria o quanto te fosse preciso, para apagar toda a decepção, a dor e as mentiras. Disse e repetiria o quanto te fosse preciso, que te amo, Maria Luiza... Que sinto muito a nossa distância, que eu gostaria de entrar na sua cabeça e arrancar o cenário que te obriguei a registrar.  
Salvo um pequeno pedaço desse texto para mais uma vez, e mais verdadeiramente do que qualquer outra, pedir perdão a você, João Pedro, que foi constantemente magoado, esgotado e ferido por mim... Hoje mais que nunca eu percebo a dimensão do seu amor e dedicação a mim, e percebo que nunca terei nem mesmo uma vaga ideia, do quanto você suportou até que bastasse. Sou imensamente grata e doída por dentro... você tem razão quando diz o quanto é um ser humano maravilhoso. De todos nessa trama, você era o único que poderia se desamarrar e seguir sem grandes consequências, você não tinha obrigação de ficar e ficou, dormiu comigo naquele leito de hospital e eu não consigo nem imaginar o que passou pela sua cabeça enquanto dormíamos. Mas ficou. Nada vai mudar o quanto eu aprecio a sua força, a sua insistência e heroísmo. Você partiu com razão mas, até do último segundo em que ficou, eu sinto a mais pura admiração e respeito, pela pessoa que você é e pelo que fez por mim. 

Hoje eu fiz as pazes comigo mesma... Pela primeira vez de verdade. Hoje eu me permiti amar e ser amada, eu vejo que sim, meu passado é sujo e feio, mas o meu futuro  pode ser mudado e que mesmo que demore, eu e eu sozinha, sofrerei as reais consequências dos meus atos. Agradeço com toda a honestidade deste mundo, que meu ataque a mim mesma não tenha sido letal, que eu ainda esteja viva, respirando... Tendo a oportunidade de aprender, de viver e assumir todo o amor que existe e existiu na minha vida...

21 de jun. de 2014

A vida imita a arte

Nasci e fui criada no meio da arte:
Mamãe sempre teve o dom de pintar na cara o sorriso quando quis chorar;
Papai, então! Sabia mesclar tão bem as cores que dava impressão de tirar leite de pedra;
Irmã sempre foi cor pastel, por dentro quem sabe uma Noite Estrelada...
Eu sempre fui meio esboço, sempre mudando um pouco o traço:
Ora respondia pincelada, ora manifestava o Sagazan;
Por vezes minha alma esfarelava feito carvão em canson
Outrora me via aquarela dançante.
Dos cavaletes feitos dessa árvore genealógica, sempre acreditei ser o mais tosco.
Ser Dadaísta em um meio Beaux-Arts - polimorfo e intrigante.
De concreto em minha obra só que não sou Concretismo
Sei que as vezes meu lado Tenebrista aflorou forte
Mas perdoado o maniqueísmo sei que pintou n'alma um Expressionismo
Tracei veemente sobre a pele, todos os quadros cor púrpura
Desculpa mas discordo, eu que nasci no meio de vocês declaro:
A arte é que imita a vida.


Um dia na Urca

Acendi um cigarro sentada na mureta em frente ao meu apartamento. Gosto desses momentos em que posso fingir que não tenho nada para fazer e tirar cinco minutos para sentar à toa, observando baforadas juntarem-se à espuma do mar que observo. Dá-me um sentimento de pertencer a algo, sabe? Sentar ali, observar transeuntes e a sinfonia grotesca que se forma na esquina ao lado: carros e motos e ônibus e viaturas e caminhões e cachorros e vizinhas que fofocam. Sou parte de algo sim, só não sei ao certo nomeá-lo ainda. Arrisco dizer que seja algo parecido com uma resistência, uma arquibancada crítica perante essa vida cosmopolita caótica adornada de ilustres – falsos – moralismos e discursos – vazios – panfletistas.
         Distrai-me por alguns minutos com a aparências abatida de um velho vestido impecavelmente. Era notável o capricho com que suas roupas eram passadas e o suspensório irritantemente alinhado de forma que suas alças ficassem igualmente distantes do umbigo. Há pessoas que realmente não alcançam determinado patamar de pensamentos e interesses, resignando-se a detalhes tão fúteis e pomposos como o alinhamento das alças de um suspensório, por exemplo. Segui o caminhar caquético do senhor-do-suspensório e percebi que havia parado para apanhar o jornal do dia... “Ah! Óbvio!”, pensei. Não teria de haver qualquer outro motivo para um idoso colocar-se a caminhar neste horário todo bem vestido esobretudo: sem a companhia de um cachorro. Impressiona-me a quantidade de cachorros residentes neste bairro-vilarejo em que moro, quase todos eles companheiros inseparáveis de velhinhos e velhinhas solitárias que precisam depositar seu afeto em alguém ou alguma coisa... Além, claro, da bela desculpa para caminhar que pode ser um pequeno peludo que precisa fazer suas necessidades e, de preferência, na rua. Excluindo os idosos-dos-cachorros há uma segunda classe, os idosos-foie-gras: senhorinhas que maquiam-se as nove horas da manhã e vestem blazers de cores pastel, geralmente salmão. Muito provavelmente o senhor-do-suspensório nada mais era do que cônjuge de uma idosa-foie-gras atrás de algum entretenimento que se encontra nestes jornais populares cheios de títulos sarcásticos e mulheres seminuas. Confesso que aceitaria um desses naquele momento para me acompanhar o cigarro, renderam-me por vezes boas risadas.
            Com os olhos pousados na banca de revistas meu olhar é rapidamente atraído para os corpos divinamente esculpidos de homens e mulheres nas capas de revistas. São todos sempre tão bonitos! Feminista e crítica e atenciosa que sou, resolvi reparar nos hot topics do momento em revistas voltadas especialmente para o público feminino. Arrependi-me imediatamente ao perceber que todas, t-o-d-a-s as capas possuíam a receita para um corpo perfeito em um mês, uma dieta inovadora, um novo suco poderozérrimo que além de detox estimula o seu metabolismo e, uma a uma, cada capa dessas golpeou-me com um soco no estômago por vez. Revoltante essa ideia de que meu corpo tem que ser de determinada maneira para agradar alguém e para que eu consigo alguma coisa – qualquer coisa! – na vida... Espero não me tornar uma idosa foie-gras casada com um senhor-de-suspensório.

23 de mai. de 2014

22 de Maio

"Ela não vê, não sente que está preparando um veneno que vai aniquilar a ambos; e vou saborear com volúpia a taça em que ela me oferecer a ruína; de que me serve a bondade com que quase sempre me olha? …Quase sempre?"




Ah, Werther!
Eu o queria aqui pois sei que me entenderia como eu te entendi em cada vírgula do teu sofrimento. Veja bem, há cá esse rapaz que me olha com bondade, quase sempre; que a mim trata com doçura… quase sempre; que a mim encanta…. Então, quando vem a calhar, em mim pisa e eu, esmagada, opto por agir como se nada me acontecesse, olhar vazio no horizonte, um rastro de sorriso diabólico no canto da boca para disfarçar a testa franzindo, o grito de raiva contido.
Ah, meu amigo, no final são só dores! Chego a minha casa e arremesso-me na cama como quem se joga de um penhasco e me pergunto por quê me submeto a isso. Por quê?! Cerro os olhos tentando desconectar-me do sentimento de humilhação que me corrói. De que me serve a bondade com que quase sempre me trata? …Quase sempre?

Os Sofrimentos do Jovem Werther sempre foi meu livro favorito, de verdade. Perdi as contas de quantas vezes o reli e de quantas vezes o rabisquei, grifei, anexei notas pessoais. Desde as primeiras páginas senti uma conexão muito grande com esse amante dolorido, uma empatia instantânea.
Hoje nada mais sou do que o próprio.

22 de mai. de 2014

Quer que passe um café?

Foi assim: a partir dessa pergunta que passei a me definir.
Quase a espontaneidade em pessoa, um anjo, um amorzinho.

Bela analogia do eu em vida: me fode, em qualquer um dos sentidos, e ainda serei educada o suficiente, para lhe oferecer um café depois do fiasco.

Faço samba e amor até mais tarde

Sempre gostei de tudo que fosse novo, toda e qualquer coisa que me trouxesse sensações inusitadas! Provei das mais insólitas comidas, orei das mais variadas formas. Ajoelhei ao padre e me confessei, ajoelhei ao namorado, experimentei.
Lembro-me bem do eco em minha cabeça, das palavras querendo escapar entre os vãos dos meu dentes: EU QUERO SENTIR! Agarrei cada pedaço de sensação que vi pela frente e como se em uma fagocitose emocional, os roubei para mim. A vida sempre me foi assim: tudo intenso, tudo imenso! Ou tudo ou nada, se te amo te dou meu mundo e se lhe odeio lhe tenho asco… Quando feliz uma tocha flamejante e quando triste um dilúvio, viro então a rainha da menisquência, monocromática.
Pouco me admira que inda tão novinha, busquei os prazeres do sexo! Ah! O sexo! Iria lá buscar outra coisa? Tudo o que ouvia pelos cantos era desse famigerado ato!  Pois fui e fiz bem mal feito. Sim: bem mal feito. Aprendi que tudo que se apressa tende a vir com um ou outro defeito. Continuei então, como já era de minha natureza, buscando sensações e situações, sensações EM situações. Descobri que sou tarada! Por mais que ainda não saiba definir por completo o que isso seja, acho que se encaixa, acho que define. Faço amor bem feito, faço até mais tarde. Faço de todo e qualquer jeito, com todo tipo de corpo, com todo tipo de sexo. Faço e gosto, aproveito. Exploro todo e cada canto, do corpo e da alma… cada sensação um novo tesouro que faço questão de guardar.
Ao falar dos meus sentimentos também fui sempre artista, sempre coloquei em notas, cores, letras. Eu canto o que sinto, desenho o que me inflama… Tento traduzir em sílabas a dança da alma, que dança e queima, que grita e procura por vida, essa que me é música para dançar! Foi assim no primeiro porre, primeiro trago, primeiro gozo. Bom ou ruim, coloco para dentro. Deixe-me experimentar! Deixe-me expressar! Vou compor um chorinho, pra falar de tudo que senti com os afagos dos que passaram na minha vida, um sambinha para descrever os gostos das maçãs dos rostos que beijei.
Faço isso porque sou assim, sempre fui e empunhei a missão de sempre o ser: desbravadora das sensações, fazendo samba e amor até mais tarde.

12 de mai. de 2014

Jasmim

Às vezes eu me sinto assim, como as flores de Jasmim pelas ruas do Rio de Janeiro:
Em abundância, no chão, pisadas vez após vez à espera de alguém que as pegue e aprecie.


11 de mai. de 2014

Balzaquiana

Viu, talvez um dia eu consiga expressar tudo aquilo que me assoma...Dar nome e rosto a toda essa espiral confusa que você sabe que me assombra. Não sei! Não sei dizer o que é que me vem quando eu percebo que não sei o que é mesmo o que eu queria dizer!
Viu, até agora não disse quase nada mas me sinto um bocado aliviada! Vem! Quero abrir a porta e dizer que passei café e que estou com dor nas costas Que eu sinto falta dos meus gatos, estou carente e indisposta; que tudo parece errado e o mundo todo é uma bosta; Que se eu pudesse, viajava para Paris e me jogava no Sena! Você me conhece: eu sou dramática e viajo nessa cena!
Viu,  já liguei o ar-condicionado, fechei a porta do meu quarto, botei o violã de lado, apertei um baseado e quero deitar contigo sem ter hora para levantar.

Timoneira

Minha alma é um navio que navega mares demasiado turbulentos. Nele só embarca quem acho que seja capaz de encarar a viagem repleta de idas e voltas, as ressacas suicidas, a emoção de ver o sol em chamas pondo-se sobre a água que é profunda. Sintonia entre quente e frio, chama e água, eu e eu mesma enfim. Eu sei:
Hei de abrandar meus mares.
Hei de respirar ares.
Tenho o timão em mãos
Resta escolher para onde ir. 

Re-partindo

Será que faz parte este ranço?! Dói tanto… Acho sim que faz parte esse desânimo constante. Olha aqui, a verdade é que eu tenho tanto pra dar que finjo que é nada! É tão imenso que me apavoro perante a dimensão de tudo que sinto e experimento. Parece-me mais seguro fingir que não está lá. Vou mostrando só pedaços… Faz parte, não?! Todo esse tango social em volta do que somos e não somos, o que mostramos ou não mostramos. Minhas sensações continentais são puro continente da minha essência, bombas atômicas que ao fragmentarem-se reconstroem-se em cima do todo que vacila sempre na hora de separar-se em partes.

Faz parte essa confusão em cima do que penso, de tudo que sou.

Manhã

Hoje de manhã acordei emaranhada em edredon, lençol e um rapaz.
Tudo confuso: meus braços com as pernas dele, os pêlos dele e meus cabelos… 
Acordei sorrindo, confortável. Acordei quentinha e aninhada. 

Não me movi.

Entre um segundo e outro passei horas pensando em coisas para escrever, na arrumação da casa, na programação desta semana. Pensei em mim também, no meu corpo cansado mas relaxado. De olhos fechados, desenhei entre as sobrancelhas um ponto de interrogação flamejante:
A dúvida queima! Duvidei se um dia eu seria capaz de prever tudo o que me ocorre agora, se um dia eu abriria os olhos enrolada em braços que não os seus.

Não me movi: não sei se quero me mover.

2 de mai. de 2014

Súplica em desabafo

Sempre que lembro do meu ensino médio, recordo com clareza de palestras de psicólogas acerca de problemas comuns nesse período complicado da vida - não que esteja menos, no meu caso. - e é com um asco que me recordo, em especial, daquelas sobre distúrbios alimentares.
Os mais comuns desse leque enorme de dificuldades com a comida e a alimentação são a Anorexia e a Bulimia, e em suas apresentações diziam sempre assim:
- A Anorexia consiste em um medo exagerado da comida e da privação dela, enquanto a Bulimia retrata um indvíduo que, culpado pela comida que ingeriu, vomita.
Olha, eu gostaria que fosse assim tão simples e quadradinho. Segue enfim, o meu desabafo:
Não sei com precisão quando o meu relacionamento com a comida tornou-se conturbado e angustiante, tenhosalgumas recordações, embora obscuras, das minhas primeiras restrições… Começou com o lanche da escola e logo depois eu pulava quantas refeições podia. Lembro-me de ir dormir com fome e de tomar litros de água para que meu estômago não suportasse nem um grão de arroz. Honestamente, bom seria se as coisas continuassem dessa maneira.
Visto que com essas pequenas mudanças em meus hábitos deram resultado, eu queria mais. Sentia-me no controle de pelo menos um pedaço pequeno, mas não pouco significativo da minha vida. Gostaria de narrar como as coisas evoluíram, ou até mesmo lembrar como foi para que eu mesma analisasse minha trajetória nesse caminho obscuro e doloroso.
Desse caminho eu infelizmente ainda não conheci o fim, eu estou em recuperação. Constantemente cedendo aos velhos hábitos e medos e mais uma vez, decidindo lutar esse monstro que durante muito tempo controlou grande parte da minha existência, afetando relações sociais, minha auto-estima, humor e saúde, tanto mental quando física. Por isso digo:
Não, não se parece nem um pouco com o que os psicólogos e palestrantes nos diziam. Esqueceram de mencionar os ataques de ansiedade perto das horas das refeições, as atordoantes restrições! Meu corpo doía de fome mas minha mente gritava que eu não merecia, que eu não tinha controle, que não era capaz ou boa o suficiente.
Disseram sequer, das compulsões: comer pratos e pratos de tudo o que se vê pela frente até o estômago doer, e claro, ver-se obrigada a colocar o que puder daquilo para fora e abusar do uso de laxantes em desespero diante da possibilidade do acúmulo dessas milhares de calorias. Sim, milhares. Em um "Binge" - termo usado para definir as compulsões alimentares -, devo ter consumido, em meu ápice, cerca de 9000 calorias em uma tarde.
Não nos avisaram, do pânico diante de um buffet, porque sua mente oscila entre não comer nada ou o mínimo possível para disfarçar, ou escolher justamente alimentos que sejam mais fáceis de vomitar e comer até passar mal - nada ia ficar "comigo" mesmo…
A vida social! Por que não falaram que um distúrbio desses faria com que alguém recusasse reunir-se com seus queridos pelo medo de se deparar com um coquetel calórico e/ou um ataque de pânico silencioso? Dos constrangedores comentários como "nunca te vejo comer". "porque você sempre vai ao banheiro depois que come?".
Citei aqui, pequenos círculos desse inferno que atinge 1 a cada 10 mulheres, 1 a cada 26 homens, dentre os quais, 10% morrerão em função de desequilibrios e mazelas de seus hábitos alimentares. Eu não quero fazer parte desses números, não mais. Acima de tudo, apavoro-me com a possibilidade de algum de meus conhecidos enfrentar essa batalha e de quantos mais passarão por isso.
Assim, é com o peito pesado que peço aos psicólogos, professores e qualquer outro profissional responsável e presente em especial nesse período da vida de um indivíduo, que estejam sempre alerta, que ofereçam apoio e sobre tudo informação. Não basta expor, é preciso alertar, prevenir e remediar.
Me ponho de prontidão a qualquer um que gostaria de conversar/desabafar sobre o assunto, não vacilo em dizer que me importo e que quero o melhor para todos e para mim. Mantenham-se fortes e não desistam diante de um relapso… Tente outra vez.

29 Pontos

Pontuei sobre a linha traçada à lâmina
Me rasguei para pontuar em cada ponto
Uma ponta de gota de sangue
Do meu penar.

Olhos de Suicida

Há cá uma menina com os olhos pulsantes tristes, fazem-me querer doar todo conforto que há em mim - se é que resta ainda algum! 
Guardo um medo da dor, assusta-me  a dor dos outros… encontro-me, porém, perdida nesses olhos tristes. Olhos saudosos, chorosos e doces. Olhos de alma profunda.
É tão bela a dona deste par de olhos! Percebo com clareza, que seu charme emana da tristeza e nessas duas íris cor-de-mel, fantasio silenciosa adernar. Quero cuidar destes olhos tristes, trazer o sorriso que merecem.

Pulso Contínuo

Não prezo Não presto                    
Não quero Não gosto
Não gozo Sem gosto
Tem fogo Vem logo
Me jogo Num jogo
Tem gosto Te gosto
Não forço Com força
No fundo Sem fundo
O vazio O mundo
No espelho No meio
Sem meio Sem Jeito
Careço 
Apreço
Sem preço Com pressa
Sem Mais
Sem Vida 
Sem sentido Venho sentido
Não consentido 
Quero sentido
Sentido vazio Buraco
Aspirador de Emoções
Impulsos sem pulso
Não pulsa o pulso
Compulsão!
Não para Não cessa
Só arde Só dói
Só morre Só some
Não soma
Só morre

Éden Particular

Me vejo quase um abismo 
Que com flores do campo fiz questão de acolchoar
Para quem merecer nesse abismo mergulhar
Cair  ardente no fundo do poço de meu paralelismo

Colher antíteses nas planícies de catatonia
Provar no rosto minhas brisas ansiosas paranóicas
Recostar na árvore em eterna agonia
Sustentada por meus princípios de moça estóica

No fim da queda um éden
Dentro do éden meus frutos
Semeando novos monstros. 
Guardo receosa um canto escuro, um pedaço meio errante da minha psique que tira meu sono, que tira meu gosto, meu gozo. Não abro, não mostro! Nem eu mesma sequer o olho! 
Ecoo atordoada um canto obscuro, uma nota dissonante da minha alma que grita em meu sono, que aparece nos meus gostos, traz meu gozo. Eu grito, escancaro! Nem eu mesma sequer me ouço!

30 de jan. de 2013

O centro do erro.

Vou descendo para dentro de mim em uma espiral frenética... Horas se passam, anos se passam e eu nunca paro, nunca alcanço o fundo. Não sei do meu limite. Durante a queda eu só desejo atingir o chão com toda a minha força, fazer o baque ecoar em toda a minha existência. Queria chegar no piso, no centro do erro.
Acredito que esse piso seria quebradiço em determinadas partes e incrivelmente resistente em outras mas sobretudo ele seria quente e acolhedor como se implorasse para ser tocado. Seria o chão perfeito para se deitar e ler. Haveria contudo de se tomar muito cuidado porque ele poderia se quebrar a qualquer momento.  Vale ressaltar que esse chão seria também instável, bem intencionado mas inclinado à tragédia, tendencioso a engolir ou rasgar com sua superfície escabrosa quem nele deitasse.
Sobre esse chão haveria uma estante com semblante cansado. Catatônico. Eu sei que se olhasse para ela sentiria que ela decepcionou-se com os volumes que guarda. Nesses livros estaria registrada toda a minha vida. Cada pensamento e diálogo, cada decisão. É por isso que a estante seria tão melancólica: pois ela vê o eu que ninguém mais vê. Eu sei também que ela seria triste por saber da minha dor, saber do peso que levanto nos calcanhares a cada passo. Sei que eu gostaria de ler todos os livros que ela castamente carrega... Rabiscaria muitos deles e sei que com lágrimas eu borraria algumas páginas. 
Assim eu imagino o centro, o cerne de todo meu erro... Mas a estante ainda espera minha visita e o piso permanece inalcançável. 

Eu continuo caindo e girando no vazio.

16 de set. de 2012

Flores espalhadas pela chuva


Fica difícil, sempre um pouco mais, o peito aperta, sempre alguns milímetros a mais. Repenso sempre minha existência, repenso sempre minha vontade de realmente existir... Não acredito que haja um plano traçado, uma linha sorridente estirada no chão esperando que eu a siga, não há estrada de tijolos amarelos.
Mas eu suspiro, eu agarro o ar com tanta raiva e desespero que faço pressão na alma, silencio vozes no meu próprio purgatório moral. Apago alguns borrões, mas é só de mentirinha... porque quanto mais eu esfrego, quanto mais sabão eu jogo mais eles borram. Lavo tudo com lágrimas, rasgo a pele entre uma faxina e outra... mas eles ainda estão lá. Borrões escrotos.
Eu quero sempre ser melhor, mas ser melhor por vontade de não fazer parte do pior é realmente digno?
Com licença Yan, mas eu me aproprio das suas palavras e digo que choro, eu choro como criança apesar dos anos terem me tornado velha.

"Choro como uma criança embora eses anos me tornaram velhoAceitar como uma maldição um acordo azaradoDeitado pelo portão ao pé do jardimMinha visão entende para fora da barreira do muroNenhuma palavra poderia explicar, nenhuma ação determinarSó assistindo as árvores e as folhas enquanto caem."