20 de jun. de 2014

De mãos vazias

Como é fácil, como é cômodo simplesmente largar a mão daquilo que se diz. Qual é mesmo o valor das palavras? Eu, que sempre fui facilmente tocada por qualquer frase caprichada, com um requinte ímpar, vejo espalhado no chão uma coleção de frases tuas. Guardei, uma a uma, e as repetia baixinho na mente. Me mantinha viva, sabe? Pelo menos eu achei que me mantinha viva dentro de ti. Diz-me então qual o valor das tuas palavras, amor? Porque eu em minha frágil posição não posso dizer. Sou outra, sou distância, sou possibilidade... Enquanto me foste certeza, desejo, pureza. O que explica essa disparidade? Tens aí guardada uma oração enfeitada que me faça por vez entender? De que me valem tuas palavras se quase sempre eu mesma as proclamei à mim, vez após vez, quando poderías tu ter me embalado em conforto e carinho. Partiste e já não deixas mais nenhum sinal de vida dentro da minha, virou-se assim tão facilmente, como quem vira a página de um livro calmamente, sem remorso. É este então o nosso epílogo? Tu viras a página e eu fecho o livro? Te digo coisas que por vezes não queres ouvir e isso é legítimo, mas me disseste coisas que não fizeste cumprir. A quem devo conceder a palavra final, aquela que pontuará nossa história? Nunca quis que fosse desta maneira, quem diria que estaria aqui em plena prosa saudosa quando poderia te destilar mil e um poemas te olhando os olhos. Beijando-te os olhos. Por que, bonito, por que não ages conforme diz? Por que cais no clichê? Aliás, por que eu permaneço nesse clichê de menina sofrida, ao léu, chorando as promessas do pretendente? Não estou em um romance de Balzac e tu não vais quebrar a porta e irradiar tua luz e calor apartamento adentro. Não estamos em um livro e se caso fosse, tampouco seria Balzaquiano... só queria chacoalhar-te dos pés a cabeça perguntando por que, e que essas duas palavras ecoassem incessantes no teu ser até que pudesses abrir a boca e baforar nem que fosse um só motivo plausível, que me fizesse crer que o que me dizes nessa hora é verdade e tudo o que me foi dito antes de nada vale. Assim eu poderia seguir, sem fingir que ainda seguro tua mão, que visivelmente perdeu-se da minha.
Perderam-se as mãos, as palavras, a esperança.
Te escrevo agora enquanto te visto e ainda lembro de promessas... Me pergunto o que houve com elas.

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