17 de nov. de 2015

De manhã

Pulei da cama querendo mudar tudo,
O todo que me rodeia pareceu cético.
Nada do meu semblante nesse ninho!
Reorganizei-os em um admirar mudo,
Meus livros, meu lado mais lépido;
Limpei a pia e a mesa de cabeceira,
Fiz e refiz a cama em tentativa pífia
De sentir essa organização assídua
Em toda vida minha que titubeia
Anda na corda bamba
Que divide o eu do que me rodeia;
O que me liberta e o que me alceia
Daquilo que me aflige e negaceia:

Eu não sou este apartamento gélido
(Mesmo que sob o sol quente)
Eu não sou esse semblante triste,
Tampouco um despertar sem esforço,
Sou metonímia do arrastar de Atlas,
Sou amorfa e ainda assim, dura, rígida
Por vezes tão sem vida quanto rocha,
Por outras pulo da cama em um segundo
Querendo alegrar tudo,
Querendo trocar as cores do meu mundo
Como troco de lugar um por um
Os livros em um êxtase furibundo
Quando acordo e sinto-me deslocada
Como flor de jasmim em chão imundo.



16 de nov. de 2015

Amour Mortel

Desde a infância um namoro
Quase uma mórbida dança
Com o perecer por si só.
De túnica negra uma moça,
Que me envolve e retumba
Cantos de saudade
Não só da mortalha, da tumba;
Mas do silêncio do desconhecido;
Do não haver um só corrente fluído;
Sequer de dor um gemido:
Só o vazio sob a túnica da moça,
Que baila comigo debaixo de sol frio.
Desde menininha, paira ali
Bailarina negra e gélida
Na ponta dos pés, esvaindo-se
Põe-me implorando pra lhe seguir

Todo meu peso
          [nem sempre morto.
Reside na letra
          [nem sempre justa.
Todo o sentido escapa aos dedos:
           [Quer virar poema.

Segunda-Feira

Ainda pingam meus cabelos
Do banho gelado dessa manhã fria,
As gotas caem navalhas sobre os pés
Que se fincam no território morno e seguro
Que é esta toca que é só minha.
Deito no mar que é a cama
Ancoro-me ali,
Onde durmo e deito
E finjo que morri.

Afogo-me nas cobertas,
Enforco-me nos lençóis.
Hoje mais uma vez eu ensaiei
Um sono eterno e justo,
Mas o sol da manhã veio
E com ele imposição algoz:
"Levanta-te, toma um banho,
Esconde mais uma vez esse luto
Pois no teu alvo, enfermo busto
Encontras ainda um belo esteio"

Ainda pingam meus olhos
Diante da tarefa árdua que é cada manhã.
As gotas caem carinhosas nas mãos
Que escrevem o que urge e grita e fere
Para que eu não esqueça jamais
Que eu já caí e me reergui,
Que eu já quis morrer mas vivi.
Quem sabe um dia qualquer
Encontre um motivo para levantar
E sentir vontade de estar aqui.

15 de nov. de 2015

Eco

Já quase nem falo,
Mas soluço.
Tropeço,
Peço
Perdão e me calo
Caso soluço
Impeço.
Peço,
Que cesse do teu soluço esse eco.